Guia Gessulli
30-Jun-2016 14:16 - Atualizado em 30/06/2016 14:27
Entrevista

Mitigando riscos na coleta de carcaças de suínos

Em entrevista exclusiva, a professora e pesquisadora da USP, Masaio Mizuno Ishizuka descreve a realidade problemática do Brasil quanto a destinação de cadáveres e apresenta novas tecnologias de disposição de carcaças em estudo. Acompanhe:

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1.    Identificada como uma das dificuldades da suinocultura, a destinação de cadáveres de suínos que morreram nas granjas gera a busca de alternativas de destinos que sejam externos à área de produção, que possam minimizar o trabalho interno e ainda agregar valor. Sobre o assunto, quais são as dificuldades e desafios enfrentados atualmente na suinocultura para a destinação de cadáveres de suínos?

Masaio :. São, vários os aspectos que caracterizam dificuldades:

a.    A ausência de legislação (federal ou estaduais) que permita esta pratica. Existem legislações a nível estadual, mas muitas ainda em ritmo de espera por resolução que autorizem a sua execução.

b.    Dificuldade da sociedade como um todo em absorver tecnologias novas disponíveis no mundo. Suinocultores aguardam há décadas por procedimentos novos, principalmente a retirada de carcaças das granjas baseados em princípios de cuidados sanitários, principalmente porque já não vivemos na era de pás e enxadas.

c.    Eventualmente, certa dificuldade de entendimento no que diz respeito à internalização de técnicas e procedimentos já utilizados universalmente. Não há muito o que se provar no Brasil se uma tecnologia não é influenciada por fatores climáticos ou diversidade de matéria prima.

 

2.    Nos últimos anos, houve alguma evolução no método adotado no Brasil? Como era e como é atualmente? 

Masaio :. . Sim, tem ocorrido lenta e progressivamente embora uma não anule o outro método. Os métodos mais antigos são o enterramento, aterro sanitário, lançamento a céu aberto e fossa anaeróbica. O método mais atual no Brasil é a compostagem realizada na própria granja. Tanto os métodos mais antigos como a compostagem são muito laboriosos, muitas vezes insalubres, caros por requererem compra de fonte de carbono ou outro combustível, carência de área apropriada na granja porque a composteira deve estar localizada afastada da área de produção.  

 

3.    Qual o método mais usual no País? Existe alguma diferença entre o método usado na suinocultura brasileira para outros países? Explique.

Masaio :. No Brasil, a mais usual na suinocultura tecnificada de grande porte é a compostagem, que é a decomposição aeróbica da matéria orgânica (carcaças, restos placentários, abortos, resíduos de procedimentos como de cauda, testículos etc). Naturalmente, os métodos mais antigos continuam a ser praticados em muitas partes do Brasil onde a suinocultura está em desenvolvimento.

Nos países desenvolvidos como EUA, Canadá, México, países da Comunidade Europeia, Austrália, Japão, Coreia do Sul, China, Nova Zelândia, estão abandonando a compostagem e migrando rapidamente para a reciclagem por razões sanitárias, de saúde pública, sustentabilidade, ambiental e trabalhista.   

4.    Um problema apontado pelos suinocultores ocorre no manejo das composteiras. Principalmente quando os animais são maiores, por exemplo. Como a maioria dos produtores faz a compostagem, questiona-se a ausência de uma legislação que regule a reciclagem animal no país. Para a senhora, o que falta para que haja uma legislação específica para regularizar as práticas de reciclagem animal? 

Masaio :. Creio que nada falta para se elaborar uma legislação pertinente. Conhecimentos, tecnologias, legislação e experiências na utilização existem naqueles países mencionados desde meados do século XX, período que antecede a 2ª Grande Guerra. Pesquisadores de nível internacional lamentam a demora na transferência de conhecimentos para o campo que tem sido, média de 75 anos. Os suinocultores têm razão porque, a compostagem é um processo que envolve muitas variáveis como: relação adequada entre quantidade de fonte de Carbono (maravalha, palha de arroz, etc) e peso de material a der decomposto (carcaças, restos de placenta, aborto etc); colocação adequada destes resíduos para evitar superposição de resíduos animais; formação adequada de leiras, umidade; temperatura; revolvimento do composto pelo menos uma vez durante o processo para promover aeração, minimização  de odor; prevenção de acesso de animais predadores; tempo necessário para a degradação total da matéria orgânica (média de 180 dias); retaliação de animais adultos como reprodutores e leitões na fase final de engorda para que a decomposição aeróbica ocorra. Chamo a atenção para o seguinte fato: embora mortalidade seja ocorrência cotidiana em estabelecimentos de produção, a prática de manejo de animais vivos é totalmente inversa à prática de manejo de animais mortos. Não seria o momento de o setor agro produtivo refletir na segmentação da produção?  O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) clama pela segmentação dos setores produtivos há mais de 30 anos em nome da lucratividade, competitividade, aplicação equânime de competências etc.

5.    A senhora realizou um estudo completo sobre os riscos na coleta de carcaças de suínos, que se transformou na publicação “Mitigando Riscos na Coleta de Carcaças de Suínos”. Fale sobre o objetivo da pesquisa.

Masaio :. Preliminarmente, menciono que realizei este trabalho de revisão bibliográfica com bastante tranquilidade, prazer e critério cientifico porque sou professora dentre várias matérias, da disciplina de Vigilância Ambiental, desde 1966, que inclui obrigatoriamente destinação adequada de restos de animais mortos. Os tópicos abordados foram:

a.      Prefácio: discorri sobre a missão da Universidade no atendimento às necessidades do campo; desafios e atrasos na transferência de conhecimentos e tecnologias do setor de pesquisas para o campo, importância do bem-estar do homem em 1º lugar e depois do bem-estar dos animais; dilemas que certamente perpassam a mente dos suinocultores; na importância da educação sanitária; e finalmente afirmo que a proposta é tão somente oferecer mais um método de descarte (venda) de mortalidade para fora da granja, ou seja, para farinheiras/graxarias para produção de farinhas de carne, de osso e de carne e osso.

b.  Mecanismos de disseminação de doenças infectocontagiosas em populações animais: expliquei que, embora mortalidades aqui consideradas sejam as usuais, muitos animais são portadores de agentes de doenças e que a disposiçao na própria granja potencializa a perpetuação desses agentes o que torna inviável querer reduzir mortalidades que estão incorporadas na sociedade como “normais”, quando não são. Ressalto que, dentre essas doenças, algumas atingem o homem, principalmente o trabalhador que lida com tais resíduos, razão pela qual mencionei acima as consequências de natureza trabalhista.

c.    Principais causas de mortalidade na rotina da suinocultura: realizei um levantamento das principais doenças e como a retirada de carcaças de animais mortos podem colaborar na redução da mortalidade.

d.    Visão da OIE/OMSA e OMS: a OIE considera a reciclagem como a melhor tecnologia por se tratar de um sistema mecânico fechado para processamento térmico para estabilizar e esterilizar o produto final como por exemplo, gordura e proteína seca. Tecnologias estão disponíveis em plantas apropriadas para essa finalidade. Este processo inativa eficazmente todos os patógenos com exceção de príons (Cap. 4.12 do Código Zoosanitário (OIE, 2015). Segundo a OMS/WHO, reciclagem animal é um serviço público essencial, é uma atividade secular que resolve de forma eficiente e econômica um importante problema ambiental, dando destino seguro de grandes quantidades de subprodutos e resíduos de origem animal. Resíduos animais fornecem condições ideais para o crescimento de patógenos que atingem humanos e animais. Incineração poluiria o ar, enterrar poderia levar a transmissões de doenças.  Já a reciclagem “sanitiza” os resíduos. A alta temperatura utilizada no processamento é suficiente para destruir quase todos os agentes potenciais, sendo o agente da BSE uma notória exceção à regra. (WHO, 2002).

e.    Descrição de todo os métodos ainda em vigência: relativamente aos detalhes de procedimentos, vantagens e desvantagens

f.     Visão de algumas Universidades estrangeiras a respeito da retirada de carcaças das granjas e sobre reciclagem.  

g.    Impacto ambiental dos diferentes métodos de disposiçao de carcaças de animais.

h.    Legislação de outros países. Neste ponto, vale mencionar que a Comunidade Europeia legisla sobre a produção de farinha a partir de mortalidade e que este subproduto deve ser utilizado somente na agricultura como fertilizante; e que Portugal e Inglaterra se sobrepuseram a esta legislação para fins de exportação por ser utilizável como ingredientes de raçoes animais de produção, pets, fertilizantes etc.

i.      Novas tecnologias de disposiçao de carcaças em estudo: como disposição no oceano, processo de plasma em arco (vitrificação com torque ou gaseificação para redução de volume), Napalm (queima com gasolina gelificada), extrusão de carcaças de frango (uso da fricção para cozimento de carcaças para redução de volume e da contaminação), exposição natural (uso de processos e predadores naturais. Existe muita oposição e controvérsias), hidrólise (aplicação direta de vapor em biorreator a 180ºC e 12 bar pressão por 40’).

j.      Realidade do Brasil: relato das intensas e frequentes palestras, conferencias, solicitações por parte do setor produtivo, algumas agencias de Defesa Sanitária Animal que se iniciou em 2012 e continua em suas idas e vindas sem solução.

k.    Realidade de outros países: descrevo não apenas a aprovação em forma de lei, mas também modernos sistemas de coleta via sistema similar a Call Center.

l.      Estocagem de animais mortos: nos primórdios da remoção de mortalidade dos animais, a maior dificuldade era representada pela coleta antes que se iniciasse a decomposição. Atualmente existem procedimentos de armazenagem em câmaras de congelamento (entre 10-12º C) na própria granja ou em locais de transbordo. Fiz uma breve análise econômica do custo da compostagem somente no tocante à compra de maravalha para demonstrar o fator econômico.

m.   Pontos críticos e medidas de mitigação: a quase totalidade das referências bibliográficas mencionam as dificuldades referentes à coleta imediatamente após a mortalidade e inexistência de medidas adequadas de biosseguridade. Realizada avaliação dos pontos de risco desde a retirada dos animais mortos e resíduos da granja até a transferência para a câmara de congelamento incluindo medidas de higiene pessoal dos trabalhadores e medidas de biosseguridade da granja, realizou-se análise de risco qualitativa sobre a possibilidade de aplicação das medidas de mitigação e transformamos em um roteiro de trabalho de responsabilidade do suinocultor.

6.    Existem projetos pilotos sendo estruturados visando colocar em prática o conteúdo deste estudo? Fale sobre eles.

Masaio :. Em execução somente na EMBRAPA de Santa Catarina. Desconheço o delineamento experimental bem como a fase de execução que se encontra. MG e PR também receberam orientação do então Secretário Nacional de Defesa Agropecuária/DSA-MAPA, Dr Décio Coutinho), mas não estão executando.  

7.    O estudo oferece outras alternativas para os procedimentos usuais. Quais são? Fale sobre elas. Em sua opinião, qual das alternativas é a mais viável para a suinocultura brasileira? Por quê?

Masaio :. Descrevo apenas a reciclagem em estabelecimentos que já existem consolidados no Brasil. Liberta o suinocultor do ônus financeiro, emocional e de esforço físico que os demais métodos exigem; pelo fato da mortalidade poder vir a representar ganho para o produtor pela venda de carcaças; por estar em consonância com os princípios da segmentação do setor produtivo do MDIC; e principalmente por atender os princípios da epidemiologia e vigilância ambiental que recomenda distância razoável entre a área de produção e área de manejo de mortalidade.

8.    Denúncias de recolhimento, transporte, acondicionamento e tratamento inadequado de carcaças recolhidas das granjas suínas costumam ser recorrentes. Para que haja o tratamento industrial dessas carcaças é preciso haver adequações na legislação? Em quais aspectos?

Masaio :. Denúncias tem sido recorrente, mas a prática certamente tem sido constante desde a década de 70’. Não podemos ignorar que, existem pessoas de má fé que realizam a coleta de carcaças que são lançadas em estradas ou fora do perímetro da granja face à impossibilidade de manuseio e produzem embutidos caseiros como linguiça que são comercializadas localmente. Mas, existem muitas pessoas, conscientes da importância da reciclagem e que estão trabalhando com ideias e projetos de construção de câmaras de congelamento na esperança de, em futuro muito próximo, termos uma legislação para que, suinocultores com impossibilidade de realizar compostagem, possam vir a ser favorecidos. 

9.    Caso tenha outras informações que entenda necessárias para o conteúdo, fique à vontade em acrescentar.

Masaio :. Na minha convicção, fruto de 51 anos de continua pesquisa diretamente voltada ao atendimento das necessidades contemporâneas dos produtores, não apenas de suínos, este livro foi elaborado com o principal intuito de mostrar a todos, serviço de defesa sanitária animal, produtores, detentores do ápice da pirâmide da cadeia produtiva, associações de classe, academia, instituições de pesquisa, que já temos conhecimentos e tecnologias suficientes para elaborar legislação e colocar em prática. Se ainda restar alguma dúvida sobre sua exequibilidade no Brasil, existe uma modalidade de experimento a campo denominado “Quasi experimento” que permite colocar em aplicação o método pretendido introduzindo uma única variável (remoção de carcaças) ou mais, obviamente precedido de um bem elaborado e aplicado projeto de educação sanitária e realizar acompanhamento pelo tempo que se considerar necessário ou até a consolidação do processo no Brasil ou em regiões selecionadas.    

 

ABRA disponibiliza publicação especial com soluções para um dos maiores desafios da suinocultura brasileira

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A publicação “Mitigando Riscos na Coleta de Carcaças de Suínos” foi coordenada pela ABRA (Associação Brasileira de Reciclagem Animal). É um estudo completo realizado pela Dra. Masaio Mizuno Ishizuka. Tem o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e das empresas Eurotec Nutrition e Haarslev.

A publicação apresenta a visão de universidades de diversos países sobre o tema, o impacto ambiental dos diferentes processos de disposição de carcaças, a realidade brasileira, a realidade mundial e as medidas mitigadoras de risco na estocagem, transporte e processamento dessas carcaças. Com isso, a ABRA amplia o debate sobre a coleta e o processamento de carcaças a campo. O estudo tem 220 paginas.

Os interessados em adquirir a publicação podem enviar e-mail para [email protected] ou [email protected]br


 

Redação Biomassa Bioenergia
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