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Hidratando a cana - Marcos Fava Neves

O desempenho do processamento da cana é algo que chama a atenção

Marcos Fava Neves

Marcos Fava Neves é Professor Titular da Faculdade de Administração da USP, Campus de Ribeirão Preto. Especialista em planejamento estratégico do agronegócio ([email protected]).

20-Jul-2018 08:21

Nesta análise mensal seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos da segunda quinzena de junho e primeira de julho.

O desempenho do processamento da cana é algo que chama a atenção. Segundo a Unica até o final de junho foram processadas 222,57 milhões de toneladas, 11,6% a mais que na safra anterior. Em açúcar foram produzidas 9,74 milhões de toneladas (12% a menos) e em etanol 11,6 bilhões de litros, 44% a mais que o mesmo período da safra passada. O destaque vai para o hidratado, onde produzimos 7,77 bilhões de litros, 76% a mais. Isto é fruto de um mix de 64,4% para etanol, contra 52,6% no comparativo com o ano passado. O ATR/tonelada está em 129,1% (4,84% maior) e a produtividade aferida pelo CTC em junho foi de 82,91 t cana/ha, 2,6% menor que a do ano passado e na safra até o momento foi de 80,02 t/ha, 2,46% inferior ao mesmo período da safra anterior. A produção da ultima quinzena de julho mostra grande queda nos volumes de açúcar (23,7%) devido ao mix cair para 37,7% do total moído (45,31 milhões de toneladas). Somente nesta quinzena foram feitos 2,35 bilhões de litros de etanol, sendo 1,55 bilhão de hidratado.

Segundo o Cepea, hoje o setor de cana emprega menos gente, mas recebendo mais. Em 2004 eram 900,8 mil pessoas e em 2016, 749,9 mil trabalhadores, mas o salário médio real cresceu quase 47% indo de R$ 1.932 em 2000 para R$ 2.839 em 2016.

Em relação às empresas são algumas noticias que mostram a boa estratégia de mix, mas começamos pelo endividamento, que de acordo com a Archer, voltou a aumentar, estando agora em R$ 152 por tonelada de cana, num total R$ 92,5 bilhões.

O mix da Biosev mudou radicalmente comparando esta safra com o ano passado, vindo de 52,8% para 39,7% para açúcar. Deve cair para perto de 37% até o final da safra. A empresa estima que com isto, o superávit mundial de açúcar caia para perto de 1 milhão de toneladas. Acreditam em safra de 563,1 milhões de toneladas.

Segurar o etanol para vender no final da safra foi boa estratégia da São Martinho, que trouxe lucro líquido de R$ 153,3 milhões, mais de 28% acima do mesmo período no ano anterior. O lucro líquido na safra 2017/18 foi de R$ 491,7 milhões, com Ebitda de R$ 1,949 bilhão (35% maior). Com isto a relação entre dívida líquida e Ebitda caiu de 1,55 para 1,26.

Desde março já está no campo a variedade do CTC que é resistente à broca, que segundo a organização nos trás prejuízos anuais de R$ 5 bilhões num setor que fatura R$ 100 bilhões e tem lucros operacionais de apenas 20%. O CTC deve lançar um produto específico para o cerrado e começa a testar as sementes de cana, que podem estar disponíveis na safra de 2021/2022. Também outra boa notícia vinda da inovação, pesquisadoras do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas identificaram uma cola vinda de bagaço de cana-de-açúcar e subprodutos de empresas de celulose, já patenteada.

Com a seca principalmente em São Paulo, as perdas devem ser mais evidentes nos relatórios de agosto em diante. A Copersucar estima a safra em apenas 555 milhões de toneladas e a mais recente estimativa da Datagro derrubou de 562 para 557 milhões de toneladas. Nossa safra de 2018/19 também estará comprometida devido à seca prolongada. Temos portanto, bem menos cana, que está sendo processada mais rapidamente, mostrando que o processamento neste ano deve acabar significativamente antes.

Em relação às reflexões dos fatos e números do açúcar, continuamos com más notícias. A Datagro prevê superávit global desta safra 2017/2018 em 9,89 milhões de toneladas (menos que a estimativa anterior 10,36 milhões de toneladas). Para a safra 2018/2019, aumentou de 4,78 para 5,22 milhões de toneladas. Para a Informa, a produção supera a demanda em 7,2 milhões de toneladas na safra internacional 2018/19, quase o mesmo volume da atual (7,3 milhões). A FCStone acredita em superávit de 10,8 milhões de toneladas na safra 2017/18. Este superávit já repõe os dois déficits anteriores (7,1 milhões em 2015/16 e de 2,1 milhões em 2016/17). Apostam em 7 milhões para 2018/19.

A produção da UE deve atingir 19,5 milhões de toneladas (21% acima) e devem exportar 3,2 milhões de toneladas. Estimam que o Brasil produzirá apenas 28,6 milhões de toneladas. A produção indiana deve atingir 32 milhões de toneladas, mais de 50% acima do ano anterior. O ritmo anual de crescimento do mercado mundial de açúcar está em 1,4% e não mais no 1,7%. Há mudanças nas composições de alimentos que levam a este maior equilíbrio.

As exportações de açúcar vem desabando. Em junho foram de 1,927 milhão de toneladas, 37,6% menor que junho de 2017 e 8% menores que maio deste ano. O valor foi de US$ 571,8 milhões, 10% menor que maio e 55% menor que junho de 2017. No ano, temos vendas de 10,59 milhões de toneladas, (17,2% menores) e receita de US$ 3,2 bilhões, quase 42% menor que o primeiro semestre de 2017.

No açúcar acredito que os fatores baixistas já foram praticamente todos colocados na mesa trazendo como consequência queda de quase 28% nos preços apenas neste ano. Minha aposta ainda é de ligeira alta, pois a safra brasileira pode vir ainda com menos de 550 milhões de toneladas, o consumo de etanol ajudando o Brasil a tirar açúcar do mercado e deve ajudar bem mais ainda, o câmbio está melhor e os preços do petróleo devem se manter, apesar das más notícias mundiais de excesso de produção, o aumento dos estoques, que devem passar a 45% da demanda global e a redução na taxa de crescimento do consumo.

Em relação às reflexões dos fatos e números do etanol e energia tirando o aumento do consumo, não tivemos boas novas no mês. Ainda no rastro de destruição deixado pela greve do transporte, o consumo de combustíveis em maio caiu 13%, sendo o pior mês desde fevereiro de 2012. O consumo no país caiu 1,1% neste ano, até o momento. Diesel caiu 18% em maio e 0,6% no ano, gasolina caiu 19% em maio e 11,1% no ano e o etanol cresceu 26% em maio e 37,6% no ano. Os altos preços têm feito as pessoas mudarem hábitos e usarem menos os carros, aliado às altas taxas de desemprego.

De acordo com o Cepea, os preços médios do etanol nas usinas no primeiro trimestre da safra estão 8% maiores que no mesmo período do ano passado. O problema é que os preços do hidratado caíram bem desde a greve dos caminhoneiros (em mais de 13,6% no mês de junho, para 1,46). Aparentemente a Petrobrás não está repassando os preços internacionais da gasolina, estando a defasagem em cerca de 7%.

Segue caminhando a proposta de unificar as alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) dos combustíveis no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Isto seria bom por trazer simplificação e menor sonegação. Um valor fixo por litro, a ser cobrado na refinaria e na usina, mas o ponto negativo é que acaba a autonomia dos Estados em definirem suas políticas e isto pode dificultar a aprovação.

Ainda na esfera governamental, o Rota 2030 foi lançado em junho com possibilidades de R$ 1,5 bilhão ao ano de créditos tributários (deduções do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para as empresas que investirem em pesquisa e desenvolvimento. Mas com outras possibilidades de isenção, o valor pode passar dos R$ 2,1 bilhões.

Segundo a União Nacional de Etanol de Milho (Unem) as unidades hoje existentes no Brasil já conseguem processar cerca de 1,8 milhão de toneladas de milho por ano. Existem mais 7 projetos em desenvolvimento e são estimadas cerca de 7,5 milhões de toneladas ao ano a partir de 2021. A Conab estima 10 milhões em 2023. Estudo feito nos últimos 4 anos mostra que até um valor de R$ 38/saca é possível margens positivas às usinas.

Uma boa noticia internacional mas com pouco impacto neste momento para nós, veio da agência ambiental dos EUA (EPA) divulgou os volumes esperados de produção e consumo de biocombustíveis para 2019, algo que afeta bastante o agronegócio mundial. Foi proposto aumento de 3% nos volumes a serem misturados, chegando a 19,88 bilhões de galões, contra os 19,29 bilhões de galões de mandato vigentes para este ano. O etanol de milho permanece em 15 bilhões de galões e os demais 4,88 seriam os avançados, onde se encaixa o etanol de cana, mas provavelmente não devemos expandir nossas vendas por questões de competitividade. A EPA estima em 100 milhões de galões o que será importado de etanol de cana, contra os 77 milhões deste ano.  Já foi proposto também um aumento para o biodiesel em 2020.

Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos?

Onde eu arriscaria agora em julho/agosto: fazer hidratado, hidratado e hidratado, o máximo possível e quem puder, estocar para pegar preços melhores mais adiante.

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