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Meio Ambiente

Crise climática ameaça biodiversidade dos recifes brasileiros e pode transformá-los em 'cidades-fantasma'

A projeção indica que no ritmo que estamos, podemos perder cerca de 45% da biomassa no sul do oceano Atlântico devido ao aquecimento da temperatura oceânica.

Redação com informações de Diário de Pernambuco
19-Ago-2021 08:41 - Atualizado em 19/08/2021 10:28

Se a população mundial mantiver o atual nível de emissão de gases estufa, metade da vida marinha em recifes tropicais do Atlântico Sul pode entrar em colapso já em 2050, de acordo com análise de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Publicado na revista “Ecosystems” nesta quarta-feira (18), o estudo foi realizado durante sete anos no Atol das Rocas, primeira Reserva Biológica Marinha do país, localizada a 150 quilômetros de Fernando de Noronha.

A projeção indica que no ritmo que estamos, podemos perder cerca de 45% da biomassa no sul do oceano Atlântico devido ao aquecimento da temperatura oceânica. “O aquecimento dos oceanos vai levar uma diminuição drástica na diversidade marinha, isso porque a biomassa dos recifes vai transferir menos energia para o próximo animal da cadeia, as algas vão ter menos nutrientes e os peixes serão menos resistentes, diminuindo e fragilizando as espécies”, explica o pesquisador Leonardo Capitani. Também Co-autor da pesquisa, Guilherme Longo acrescenta que “os recifes correm o risco de se tornarem ‘cidades-fantasma’ no mar, totalmente sem vida”.

Análises recentes também alertam para o grave cenário no aumento da temperatura. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), divulgado no início de agosto, indicou que vamos ter um aumento de 1,5°C de aquecimento global dez anos antes do previsto, em 2030, o que poderá trazer consequências também para a vida nos oceanos.

Outro fator que agrava a situação é o acúmulo de impactos negativos que o ecossistema precisa reagir. Nesse sábado (14), fragmentos de óleo e lixo foram encontrados em praias de Fernando de Noronha, próximo ao local onde a pesquisa foi realizada. “Não é nem o óleo, nem o lixo, a causa. O que acontece é que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e os efeitos se somam. Tem o efeito negativo do óleo e o da temperatura, é muito mais difícil para o ecossistema lidar. A gente tem que ter áreas protegidas. As áreas protegidas você reduz esse efeito do lixo. É mais um efeito aditivo: lixo, óleo, temperatura, tudo ao mesmo tempo”, explica o biólogo.

Além do dano biológico irreversível, esse aquecimento do oceano deve impactar também a economia e a segurança alimentar das zonas costeiras, como é o caso de Pernambuco que possui forte tradição na pesca artesanal em seu litoral.

“Isso deve impactar negativamente a atividade pesqueira na região em uma redução na quantidade de peixes, pelo menos com mudança nas capturas, provavelmente vamos começar a explorar outros recursos pesqueiros que consigam resistir a esse aumento de temperatura. Talvez a gente não consiga continuar explorando os mesmos peixes que a gente explora hoje. Talvez haja uma mudança drástica. Certamente a segurança alimentar das populações que dependem não só do consumo do pescado, mas também da comercialização dele, fica em risco”, explica Longo.

Os pesquisadores conseguiram criar um modelo matemático de cadeia alimentar dos recifes tropicais do Atlântico Sul, algo inédito para as pesquisas da área. O modelo consegue comparar a biomassa de diversos organismos a cada ano, incluindo peixes, algas, corais e outros invertebrados, levando em consideração a eficiência daquele recife em circular energia e matéria.

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