Guia Gessulli
10-Abr-2019 08:46
Comentário

Consumo de etanol anima nova safra 2019/20

Nesta análise mensal seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto, médio e longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir do resumo dos fatos de março

Para a cana, saem as estimativas de safra. Vamos a elas: de acordo com a Sucden, a próxima safra deverá ter 564,55 milhões de toneladas e serão produzidas 27,16 milhões de toneladas de açúcar e 28,55 bilhões de litros de etanol. A atual, segundo a empresa, deve fechar em 572,69 milhões de toneladas e produção de 26,57 milhões de toneladas de açúcar e 30,1 bilhões de litros de etanol. Agroconsult estima a moagem de 2019/20 em 575 milhões de toneladas (0,8% a mais), com 63% destinados a etanol com isto produziremos 28,7 bilhões de litros (6% a menos) e 28,8 milhões de toneladas de açúcar (9% a mais).

 

Pela Datagro serão moídas 583 milhões de toneladas no Centro-Sul na safra 2019/20, e comparando-se com a atual safra (570 milhões) teremos apenas 2,3% a mais. A produtividade deve crescer 2% e 38,8% desta cana será destinada ao açúcar, produzindo 29,7 milhões de toneladas (3 milhões acima da atual). No etanol estimam 30,2 bilhões de litros (1,15 bilhão vindos do milho). Com isto perderíamos 2,7 bilhões de litros em relação à safra atual.

Pela Copersucar, serão entre 580 a 590 milhões de toneladas, a um mix entre 36 a 38% para açúcar, gerando produção entre 26 a 28 milhões de toneladas. De etanol a produção ficará entre 30 a 31 bilhões de litros.  Finalmente, para o Rabobank a safra 2019/20 deve ficar entre 560 milhões e 570 milhões de toneladas de cana produzindo ao redor de 28 milhões a 29 milhões de t de açúcar.

Temos variações aqui entre 564 a 590 milhões de toneladas, de diversas empresas, mostrando no geral pouco crescimento em relação à safra que terminou. Esta é a mensagem principal.  

Nas reflexões dos fatos e números do açúcar temos que o Rabobank estima déficit global de 4,3 milhões de toneladas na safra 2019/20, com queda da produção indiana, principalmente (cerca de 2,2 milhões menor). Para o final da safra 2018/19 é estimado um superávit de 1,1 milhão de t. Estima preços entre 11,5 centavos de dólar por libra-peso a 14 centavos de dólar. O consumo nesta safra deve crescer 1,4% e os estoques ao final devem estar próximos a 39% das necessidades de consumo. Pela S&P Global Platts o déficit na safra mundial 2019/20 (de outubro a setembro) será de 1,93 milhão de toneladas. E  a safra 2018/19 terá superávit de 5,55 milhões de toneladas. Para a Sucden teremos em déficit mundial de 4 milhões de toneladas no açúcar na próxima safra.

Em artigo no Valor, Eduardo Leão trás interessantes números e contribuições na questão do mercado mundial de açúcar. O Brasil detém praticamente 25% da produção mundial de açúcar e 50% de participação no que é transacionado. EUA, Europa e China, que consomem cerca de 45 milhões de toneladas, compram apenas 20% de sua necessidade, pois tem muito apoio para produzirem localmente (tarifas de importação gigantes e cotas), mesmo a custos maiores. Concorrentes do Brasil nas exportações também apoiam o produtor e subsidiam as exportações, e os principais exemplos são Índia e Tailândia. Segundo a UNICA apenas o apoio da Índia tirou US$ 1,3 bilhão dos nossos produtores. Leão recomenda que o setor público continue entrando com painéis na OMC, defendendo o comércio e nossa a competitividade e para o setor privado, estimular a entrada do etanol nestes países, cooperando com o desenvolvimento desta alternativa.

Continua o Brasil solicitando à China abertura no mercado do açúcar em 3 milhões de toneladas para evitar que entremos na OMC contra a mesma. A salvaguarda vem desde o início de 2017, onde 15% de tarifa é cobrado numa cota de 1,95 milhão de toneladas mas o que passa disto foi para 95%. Perdemos muito mercado na China onde chegamos a ter mais de 50% do total importado, e esta perda foi de mais de 2 milhões de toneladas/ano graças a isto.

O CEPEA fechou as análise de preços médios recebidos na safra 2018/2019, que acabou em 31 de março. No caso do açúcar cristal, o preço médio recebido foi de R$ 62,57/saca 50kg, valor 7,75% menor.

Tivemos um mês de muito pouca novidade neste mercado, andou de lado o preço, mas pelo menos continuam as perspectivas que no próximo ciclo preços melhoram pois estão convergindo os déficits para 4 milhões de toneladas na próxima safra e todos de olho no mix do Brasil.

Nas reflexões dos fatos e números do etanol e energia... minha torcida colocada nas análises anteriores deu certo! Em fevereiro segundo a ANP vendeu-se aos postos 1,73 bilhão de litros de hidratado, recorde para o mês e 38% maior que fevereiro do ano passado. Neste ano estamos 37% acima de 2018. Dados da UNICA mostram que na primeira quinzena de março foram vendidos pelas Usinas 824,12 milhões de litros de etanol hidratado, número 23,5% maior que a mesma quinzena do ano passado. Contando desde 1 de abril de 2018, foram vendidos 20 bilhões de litros de hidratado, 35,6% a mais. O anidro caiu 10,4%, tendo sido vendidos 8,1 bilhões de litros. Exportações cresceram 4,3%, atingindo 1,518 bilhão de litros. A UNICA computa também que a produção de etanol de milho cresceu 52% no período, atingindo 745,05 milhões de litros.

Interessante que os preços do etanol subiram nas bombas acompanhando os 11% de aumento da gasolina, mas não foram acompanhados de subidas nas Usinas, pelo contrário, caíram 12% no mês, com o hidratado chegando a beirar R$ 1,70 nas usinas de SP. De acordo com a ANP em apenas 4 estados o etanol estava abaixo dos 70%: São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Precisamos entender por que no MS e no PR, grandes estados produtores, não está vantajoso.

No médio prazo, recente pesquisa do BCG (Boston Consulting Group) feito para a Plural aponta serem necessários investimentos de R$ 82 bilhões tanto na produção como na infraestrutura para atender a demanda de combustíveis em 10 anos. Destes, cerca de R$ 38,5 bilhões para a produção de biocombustíveis. O estudo considerou um crescimento de 2,5% ao ano para o Brasil. Aponta também a necessidade de simplificação tributária e combate à sonegação, estimada em cerca de R$ 5 bilhões. Desta a Plural acredita que R$ 3,8 bilhões são em etanol e 80% em São Paulo e ainda que de 5 a 20% do combustível é adulterado. Além da uniformização do ICMS e simplificação, recomenda-se menor concentração na produção e refino de combustíveis.

Acredita-se que algo entre 60 a 70% das metas de redução de emissão de gases do efeito estufa do RenovaBio que começam em 2020 serão feitas por BR (Petrobras), Raizen (Cosan e Shell) e Ipiranga (Grupo Ultra) que terão os créditos gerados pelos produtores (dados da consultoria Green Domus ao Valor).

Sobre o etanol de milho, a UNEM acredita que a produção do Centro-Oeste pode abastecer as necessidades do Nordeste com melhorias na logística, competindo com o etanol americano. O investimento seria na estrada que liga a região produtora ao porto fluvial de Miritituba, no Pará. Entraram no Brasil vindos dos EUA quase 500 milhões de galões em 2018. Devemos produzir 1,4 bilhão de litros de etanol de milho em 2019, contra os 840 milhões produzidos em 2018 e a boa segunda safra de milho neste ano, que vai ajudar a produção deste etanol.

No rastro da opinião da UNEM, a FS Bioenergia (pertencente ao grupo Summit/EUA e Tapajós/Brasil) declarou que vai investir  R$ 1 bilhão em Nova Mutum para montar a terceira usina de etanol. Já tem uma em Sorriso (MT) sendo construída (termina ano que vem) e outra em Lucas do Rio Verde, praticamente duplicada já. Seus planos de expansão envolvem mais duas usinas, provavelmente em Primavera do Leste e Campo Novo dos Parecis. Segundo o Valor, a nova unidade vai esmagar 1,3 milhão de toneladas de milho a cada ano e produzir 530 milhões de litros de etanol, 340 mil toneladas de DDG (Distillers Dried Grains) e 17 mil toneladas de óleo.

Estudo do USDA mostrou que as emissões do etanol de milho nos EUA são 43% menores que as da gasolina, se as refinarias forem alimentadas com gás natural. Isto deve dar mais estímulo para permitir a mistura de 15% de anidro na gasolina americana durante todo o ano, inclusive no verão, onde não é permitida e o consumo é maior.

Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos? O que observar agora em abril: Deve continuar um grande consumo de etanol hidratado, podendo beirar o 1,8-1,9 bilhão de litros nestes dois meses, bem superior ao de 2018. Com isto derrubaremos rapidamente os estoques remanescentes e começa a safra com perspectivas melhores. Com a subida do petróleo e da gasolina em março (entre 10 a 15%), podemos arrancar a safra com preços do etanol mais sustentados e mix indo para o combustível, com isto ajudará a tirar mais açúcar do mercado e contribuir para empurrar os preços do açúcar para cima. O que não pode acontecer agora na entrada da safra é o preço cair na usina pelas conhecidas necessidades de caixa e não cair na bomba, fato que se repete desde que acompanho o mercado, prejudicando o aumento de consumo de hidratado. Quem puder, minha recomendação é a de não vender produtos agora. Aposto em preços melhores caso o petróleo mantenha este nível, pois o consumo de hidratado deve vir forte e temos pouca cana a mais no comparativo com a safra anterior.

Redação

Marcos Fava Neves

Marcos Fava Neves é Professor Titular da Faculdade de Administração da USP, Campus de Ribeirão Preto. Especialista em planejamento estratégico do agronegócio ([email protected]).

Deixe seu Recado