Fonte CEPEA

Carregando cotações...

Ver cotações

Economia

Como o biogás transforma o passivo ambiental em negócio bilionário

Grandes empresas já pagam um prêmio que varia entre 10% e 15% no valor do gás de origem renovável em relação ao combustível fóssil porque isso é contado em suas metas de redução do uso de carbono.

Como o biogás transforma o passivo ambiental em negócio bilionário

As metas de descarbonização de grandes empresas e o Marco do Saneamento destravaram um setor bilionário pouco conhecido dos combustíveis renováveis: a produção de biogás a partir da decomposição de matéria orgânica dos aterros sanitários.

Grandes empresas já pagam um prêmio que varia entre 10% e 15% no valor do gás de origem renovável em relação ao combustível fóssil porque isso é contado em suas metas de redução do uso de carbono. Instrumentos de dívida para financiar usinas de biogás a partir de aterros sanitários, como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), têm recebido atenção de investidores institucionais porque são considerados “verde”.

A tecnologia de digestão anaeróbia – pela qual se purifica o gás gerado a partir do lixo e se aprimora a molécula até chegar à composição do gás fóssil – já existe há algum tempo. Embora a indústria esteja decolando na Europa, especialmente na Alemanha e na Suécia, tem crescido lentamente na América Latina.

No Brasil, a bioenergia pode ajudar a descarbonizar setores para os quais outras opções podem ser escassas, gerando calor para as indústrias e aquecendo salas e água em edifícios, e alimentando o setor de transporte.

A Ambev (SA:ABEV3) se tornou um dos maiores compradores corporativos deste tipo de energia no país, expandindo a sua matriz energética com a aquisição de caldeiras para gerar vapor e trabalhar fontes como biomassa e biogás, segundo o relatório de sustentabilidade apresentado pela empresa ao setor. A empresa consome por ano 3,5 bilhões de megajoules (em torno de 1 bilhão de kw/h) vindas de fontes renováveis.

Atualmente, o país consome atualmente em torno de 60 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Menos de 1% é proveniente de aterros sanitários, o restante é fóssil. Fontes do setor indicam que este tipo de energia tem potencial para escalar até 12 milhões de m³, quase 20 vezes a atual capacidade instalada.

Segundo a Abiogás (entidade que congrega empresas da cadeia produtiva do setor), o Brasil apresenta o maior potencial energético do mundo para energia (gás, biodiesel e eletricidade) a partir de resíduos: 43,2 bilhões m³/ano entre resíduos do setor sucroenergético (49%), proteína animal (29,8%), produção agrícola (15,3%) e saneamento (6%). Esse potencial tem, segundo a entidade, capacidade de suprir quase 40% da demanda nacional de energia elétrica ou substituir 70% do consumo de brasileiro de diesel.

A aprovação do Marco do Saneamento este ano, uma nova regulação que abriu o setor ao capital privado, abre uma perspectiva para o fim dos lixões no país, convertendo-os em aterros, onde biodigestores podem ser instalados.

Segundo Manuela Kayath, presidente da MDC, líder na produção de biometano no país, o Marco do Saneamento abre novos investimentos para o setor porque “quanto mais aterros existirem, maior a oferta para empresas como a nossa”. Na prática, o aumento do número de aterros e plantas para a produção de biogás tornam mais confiável o suprimento de energia para cumprimento de contratos.

A MDC fatura R$ 500 milhões por ano e tem um Ebtida de R$ 140 milhões, e também atua nos segmentos de gás liquefeito de petróleo e gás comprimido.

Em julho, a empresa captou R$ 25 milhões através de um CRA para financiar uma planta na cidade de Caieiras (SP) – o projeto da Solvi, maior firma de aterros do país, e a MDC, vai consumir R$ 40 milhões de capex na primeira fase e entrar em operação em 2023. Vendido para grandes gestoras e family offices, o CRA foi certificado como ambientalmente sustentável este mês.

Além da planta em construção em Caieiras, a MDC opera outras duas plantas de biometano – no Ceará e no Rio de Janeiro.

Nova regulação permitiu transporte em gasodutos
Uma outra mudança regulatória, a Lei do Gás, permite que o biogás produzido em aterros seja transportado na rede de gasodutos existente, mediante o pagamento de uma taxa de transporte.

“Antes da Lei do Gás, a minha produção ou era vendida para a distribuidora ou, se fosse vender para algum cliente, eu tinha de levar no caminhão. Agora, a distribuidora é obrigada a me ceder um pedaço do gasoduto para eu levar ao meu cliente, pagando uma taxa para ele”, explica Kayath.

Embora fique impossível distinguir o gás de origem fóssil do gás de origem renovável depois que eles se misturam no gasoduto – porque as moléculas são idênticas –, quando uma empresa fecha um contrato de fornecimento de biogás, ela está fazendo que mais gás renovável circule pelo sistema e isso é contado como redução de emissão.

Todos os meses, o biogás é submetido a testes para certificar que atende aos requisitos da ANP (Agência Nacional do Petróleo) antes de ir para o gasoduto.

“Como no resto do mundo, já existem grandes empresas brasileiras perseguindo metas de redução de carbono cada vez mais agressivas para 2030, 2040, 2050. Elas estão fazendo uma transição energética que acaba sendo um componente importante da emissão de carbono deles. Quem já está no gás natural fóssil, quer mudar para o biometano. E, para isso, estão dispostos até a pagar um prêmio de 10%, até 15% neste biometano, mas por outro lado, se a empresa for listada em bolsa, vai ter quase que um re-rating”, afirma Kayath.

Vinhaça de cana

Na área da produção de gás a partir de resíduo, a maior aposta do setor tem sido através da produção a partir da vinhaça, subproduto da cana-de-açúcar após sua transformação em açúcar e etanol. O país é o maior produtor do mundo.

Dentro da tendência de novos contratos de fornecimento de gás de origem renovável para reduzir as emissões de carbono, as Indústrias Alimentícias Liane Ltda., uma fábrica de biscoitos em Presidente Prudente (oeste do Estado de SP) vai comprar gás canalizado produzido a partir da vinhaça de cana.

A GasBrasiliano, distribuidora de gás canalizado no oeste paulista, será a fornecedora. A GasBrasiliano e a Usina Cocal estão construindo uma planta de biometano com investimentos de R$ 180 milhões (R$ 30 milhões para rede de distribuição), que deve operar a partir de julho de 2022.

A Liane traçou uma meta de zerar a emissão de poluentes até 2025. Hoje, a indústria utiliza como fonte de energia o gás GLP (gás liquefeito de petróleo) para os fornos de biscoitos, óleo para as caldeiras, energia fotovoltaica no setor administrativo e alguns setores energia elétrica. Sua matriz energética atual está dividida em 80% energia elétrica convencional, 15% gás GLP e 5% óleo BPF. Com o gás feito do resíduo da cana, a empresa espera chegar a 40% da matriz em bioenergia, segundo Maurício Calvo, diretor industrial da Liane.