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Cana em Janeiro: Grandes Incertezas Nesta Entressafra

Exportações do setor sucroalcooleiro cresceram 5,9% em novembro, chegando a US$ 660,21 milhões.

Marcos Fava Neves

Marcos Fava Neves é Professor Titular da Faculdade de Administração da USP, Campus de Ribeirão Preto. Especialista em planejamento estratégico do agronegócio ([email protected]).

08-Jan-2020 13:25

Na cana, a UNICA estima que esta safra chegue a 590 milhões de toneladas, 3% acima das 573,2 milhões de 2018/19. Isto numa área 2% menor, com melhor produtividade das lavouras, em função do clima favorável. Pelo CTC, considerando novembro, estamos com produtividade 4,2% maior quando comparado à safra passada, de 76,4 toneladas por hectare (contra os 73,3 t/ha). Já o ATR deve ir para 138,5 kg/ha contra os 137,9 kg/ha da safra anterior. O mix deve fechar em 34,3% para açúcar, produzindo 26,7 milhões de toneladas (0,7% a mais). No etanol teremos 33,1 bilhões de litros (7,1% a mais, sendo 9,72 bilhões de anidro e 23,42 milhões de litros de hidratado). A idade média dos canaviais é de 3,7 anos. Para a safra brasileira, incluindo o Norte/Nordeste, a CONAB estima em 642,7 milhões de toneladas. No final da safra demos uma boa reagida, havia mais temores de produtividade no início, mas o clima acabou ajudando.

Exportações do setor sucroalcooleiro cresceram 5,9% em novembro, chegando a US$ 660,21 milhões. No açúcar exportamos em novembro US$ 565,19 milhões (+3,6%), já no etanol foram US$ 91,57 milhões (+19,7%). Boa notícia!

A Bonsucro, que certifica 4% da área de cana no mundo, lançou uma plataforma de negociação de créditos. Sem dúvida é necessário estimular o pagamento de prêmios para os produtos certificados, pois num primeiro momento o processo provoca impactos nas contas dos produtores e apenas, segundo a empresa, 24% do que é certificado recebe prêmio pela sustentabilidade. Ou seja, aumentam os custos e não os preços. Essa plataforma permite aos compradores de açúcar adquirirem créditos e aos produtores a ofertá-los. O Brasil representa mais de 80% das certificações da empresa e isto pode criar oportunidades aos nossos produtores para receber pelos investimentos feitos.

A São Martinho anunciou os números da safra 2019/2020. Foram produzidas 1,1 milhão de toneladas de açúcar, 11,4% acima. De etanol foram 1,145 bilhão de litros, 7% a mais. A moagem atingiu 22,64 milhões de toneladas, quase 11% acima da safra anterior. O ATR fechou em 139,4 quilos por tonelada de cana, 2% abaixo. E o mix ficou em 37% para açúcar.

No açúcar, o primeiro trimestre da safra indiana ficou 30% aquém do ano passado, com produção de 7,8 milhões de toneladas (dados da ISMA). O teor de sacarose também está menor, devido ao alagamento que existiu em algumas regiões. A moagem também está atrasada. Preveem produzir 26,9 milhões de toneladas nesta safra, contra as 33,2 milhões da safra anterior (queda de 25% na produção). Finalmente!

O Rabobank elevou a estimativa de déficit na safra 2019/20 em 3 milhões de toneladas desde sua última estimativa, agora está em 8,2 milhões de toneladas. Produções menores na UE, Índia e Tailândia. O desempenho da colheita nestes dois últimos países e o mix no Brasil são os fatores principais a serem monitorados. Os estoques mundiais ainda são grandes por isto os preços não reagem como deveriam.

Até o final de novembro, pelo levantamento da Archer, cerca de 5,5 das 19,5 milhões de toneladas que serão exportadas em 2020/21 já haviam sido fixadas, pouco mais de 28%. Usinas aproveitaram o melhor câmbio e preço em Nova York. Pela Archer, o valor médio foi de 13,01 centavos de dólar por libra-peso que representa praticamente R$ 1.230 FOB Santos. No ano anterior nesta época a média era de R$ 1.171 por tonelada. Açúcar também melhora este ano com a perspectiva de déficit maior no mundo e safra novamente direcionada ao etanol no Brasil, com os elevados preços do petróleo e o câmbio.

No etanol e na energia, em novembro, pela ANP, foram vendidos 1,982 bilhão de litros de hidratado. É 4% menor que as vendas de outubro, mas é o maior volume já visto no mês. No acumulado de janeiro a novembro temos 20,4 bilhões de litros, quase 18% a mais. A participação do etanol no ciclo Otto chegou a 44,6%. Como venho alertando aqui há uns 6 meses, teremos dificuldades, em se mantendo este consumo, para atravessar a entressafra. O preço terá que subir e veremos também importações de etanol dos EUA, apesar de até o momento estarem alinhadas ao ano passado. A situação se agrava com a subida de preços do petróleo com o problema do Irã. Preços do hidratado superaram os R$ 2/litro nas usinas, e segundo a SCA, preços no fechamento desta coluna estavam em R$ 2,50/litro na usina, com impostos.

A UNICA tem expectativa de vendas de 33,5 bilhões de litros no Centro Sul (10,3 bilhões de litros de anidro e 23,2 bilhões de hidratado). Com isto a participação do etanol chegará perto de 50% no ciclo Otto.  Vejam que interessante quanto espaço ainda existe na frota atual para ser conquistado.

No etanol de milho a UNICA estima produção de 1,5 bilhão de litros. Isto é 90% acima dos quase 800 milhões da safra anterior. Diversas empresas estão estudando investimentos, entre elas a Raízen, Cofco, Amaggi e as usinas (fonte do Valor). Iniciando 2020, o parque brasileiro tinha 8 fábricas em funcionamento, 6 em construção e ao redor de 10 em projetos.

O RenovaBio começou em 24 de dezembro, belo presente de Natal ao Brasil. Ainda estamos atrasados nos processos de certificação, mas teoricamente quem já está certificado pode começar a acumular os CBios nas vendas de combustível às distribuidoras, que têm obrigatoriedade de cumprimento de metas de descarbonização. Este ano observaremos o crescimento da oferta dos Créditos de Descarbonização (CBios).

De acordo com o MME a meta da distribuição é de adquirir 28,7 milhões de CBios (1 CBio = 1 tonelada de CO2 equivalente). São estas as distribuidoras e suas metas, de acordo com o MME e Valor: BR Distribuidora (7,866 milhões de CBios), Ipiranga (5,703 milhões de CBios), Raízen (5,134 milhões de CBios) e Alesat (970,6 mil CBios), com base nas participações de mercado do ano anterior.

Como serão comercializados na B3, acredita-se em grande transparência e funcionamento de futuros também. Continua válida a estimativa de pular dos atuais 35 bilhões de litros produzidos para 50 bilhões até 2030. Estima-se que 750 litros de etanol possam gerar 1 CBio, que teria um valor de US$ 10. Bonito ver um programa tão moderno como este começar a funcionar, um exemplo ao mundo.

O que observar agora em janeiro/fevereiro: o ponto principal neste momento é acompanhar a crise EUA x Irã e como isto vai afetar os preços do petróleo e importações de alimentos desta região. Este ponto afeta o consumo de hidratado, que segue forte, num momento que a safra está praticamente encerrada. Fora isto, o andamento das safras de açúcar na Índia e Tailândia, principalmente. Continuo achando que podemos começar a safra 2020/21 com preços do açúcar entre 14 e 15 cents/libra peso e preços mais elevados para o etanol, visando conter um pouco o consumo e atravessarmos a entressafra com o estoque existente. Este estímulo de preços pode levar a decisões de antecipar início de safra em algumas usinas. Em relação a esta safra, o valor do ATR vem saltando e acho que acertarei a previsão feita há uns 6 meses de que poderíamos ainda fechar com a média até acima de R$ 0,64/kg

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