10-Jul-2018 08:50 - Atualizado em 10/07/2018 10:17
Comentário

Biogás da suinocultura, onde não podemos errar mais

A suinocultura industrial possui características próprias de escala e de produção que permitem a utilização de tecnologias para a geração de biogás com benefícios incontestáveis

Na semana passada, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, aprovou em Sessão Ordinária o marco regulatório do biogás através de uma Política Estadual (o PL 26/2018). Foi o primeiro estado brasileiro a regulamentar esta questão.

Este regramento é importante instrumento para apoiar o desenvolvimento tecnológico e o aproveitamento sustentável desta fonte energética disponível em muitos rejeitos.  Méritos devem ser dados ao time que liderou os trabalhos e que provavelmente servirão de base para outros marcos regulatórios no Brasil.

Por outro lado, temos agora diversas lacunas técnicas que devem ser observadas durante a produção de biogás e que devem ser devidamente estudadas para não induzirmos aos mesmos problemas que tivemos em implementações passadas, especialmente na suinocultura.

A suinocultura industrial possui características próprias de escala e de produção que permitem a utilização de tecnologias para a geração de biogás com benefícios incontestáveis.   Uma das primeiras características a ser observada é a concentração sob dois modelos diferentes de produção.  Por um lado, temos grande produtores, especialmente no Centro Oeste e Sudeste, com propriedades grandes e focadas em altos volumes de produção.  Em outro, temos no Sul do Brasil um grande número de pequenos produtores (a maioria em produção familiar) em pequenas propriedades e com limitações de acesso tecnológico e financeiro.

Temos muitos exemplos de sucesso de produção de biogás em grandes produtores.  São propriedades que inclusive exportam excedente de energia para concessionárias e utilizam os resíduos da biodigestão como complemento fundamental para as altas taxas de produção agrícola de suas propriedades.  Entretanto, bons exemplos em pequenas propriedades são bem mais escassos.  Por que isso acontece?

Escala de produção

Hoje encontramos no mercado soluções tecnológicas para biodigestão e geração de energia em praticamente qualquer escala de produção de resíduos.  Os custos para implantação das tecnologias vão possuir um custo do baseline tecnológico que é bastante semelhante em projetos grandes e projetos pequenos.  São custos de engenharia, licenciamentos, protocolos, jurídicos, que são praticamente os mesmos dentro de uma ampla variação de tamanho do empreendimento.

Projetos com grandes volumes de geração possuem condições de contratar bons profissionais e colocar tecnologias mais adequadas, em primeiro lugar pela escala e em segundo lugar pela necessidade de mitigar os riscos de construir algo que não gere os retornos financeiros previstos.

Além destes fatores comentados, em grandes escalas, os custos operacionais tendem a ser proporcionalmente menores (por volume de biogás produzido), tanto em conservação das estruturas como em manutenção dos equipamentos.

É fundamental determinar cenários tecnológicos para os principais grupos de produtores conforme sua escala produtiva, determinando os modais para a utilização da energia contida no biogás para cada cluster.

Em algumas escalas muito pequenas, a geração de energia elétrica, por exemplo pode ser inviável, o que não ocorreria se o biogás fosse coletado de diversos produtores e encaminhado para uma central de geração termoelétrica compartilhada.

Tecnologia de Produção

Apesar do alto nível tecnológico existente na criação industrial de suínos em nosso país, ainda um ponto é bastante deficitário: o controle das perdas de água.

O fornecimento de água em quantidade e qualidade é essencial para a saúde dos animais e manutenção dos ganhos de peso estimados pelos nutricionistas.  Dependendo da tecnologia utilizada para a dessedentação, o volume de água desperdiçado pode ser muito maior que o volume efetivamente aproveitado pelo animal.

Este é um ponto profundamente estudado por várias instituições de pesquisa, entre elas a Embrapa Suínos e Aves.  Maiores consumos de água resultam em maiores instalações, menores teores de sólidos voláteis nos dejetos e consequentemente um biogás de baixa qualidade.

A hidrometração, a tecnologia de dessedentação e o controle de perdas são fundamentais para a produção de biogás de qualidade com o mínimo impacto ambiental da atividade.

Os modelos de instalação de criação dos animais também interferem de modo significativo na produção de biogás.  Instalações com flushing programado, utilizando água de reuso possuem características diferentes de instalações onde o produtor tem que lavar as instalações com mangueiras de alta pressão.  Novamente a qualidade e a quantidade de biogás é afetada pela tecnologia de criação.

Manejo do Biodigestor

Operar um biodigestor pode parecer algo simples, mas dependendo das características do equipamento, pode consumir algumas horas por semana. Grandes propriedade possuem estrutura adequada para promover todas as atividades necessárias para a adequada operação de um biodigestor e funcionários podem operacionalizar estas atividades em conjunto com outras rotinas da propriedade.  Em pequenas instalações onde o produtor e sua família são as únicas pessoas envolvidas o trabalho pode ser demandante.

A movimentação e remoção de lodos, a limpeza de caixas de passagem, manutenção de gasômetros (sim, eles furam com granizo), entre outras atividades acrescentam tempo na rotina já tomada do produtor.  Temos que lembrar que o pequeno produtor de suínos geralmente diversifica sua propriedade com outras atividades como avicultura e bovinocultura de leite.

Então, biodigestores devem ser “amigos” da rotina do pequeno produtor, devem utilizar preferencialmente equipamentos que estejam disponíveis na propriedade.  Biodigestores não podem ter uma rotina que esteja competindo com a prática laboral já aplicada na propriedade, caso contrário, o risco de serem abandonados é razoável.

Drive mobilizador

Falar que um biodigestor melhora a qualidade ambiental de uma região parece muito óbvio.  Entretanto, não existem melhorias tão significativas nas características do biofertilizante resultante do processo de tratamento por biodigestor que elimine os principais nutrientes envolvidos (nitrogênio e fósforo).  Os riscos ambientais associados com a aplicação dos dejetos tratados com esterqueira e biodigestor em solo são praticamente os mesmos.  Não existe melhoria significativa nas características agronômicas do dejeto após o tratamento com biodigestor.

O que irá mobilizar o produtor na aplicação da tecnologia é sem dúvida alguma o retorno financeiro da operação.  Se a operação for competitiva junto com as receitas obtidas em outras atividades na propriedade, o produtor investirá tempo e recursos na atividade.

Mecanismos de financiamento através dos chamados “créditos de carbono” fracassaram.  Se o projeto não tiver recuperação através de ganhos energéticos, o investimento além da legislação ambiental existente aumenta o custo do animal e inviabiliza já na partida.

Aqui entra o papel fundamental que as entidades de microcrédito terão para viabilizar estes projetos, que as cooperativas de eletrificação terão em garantir a compra da energia gerada e, que as empresas de pesquisa e fomento agropecuário terão em suportar a transferência tecnológica.

Não é possível conceber que pequenos produtores rurais terão capacidade de buscar tecnologias, fazerem o investimento, gerar valor com a energia e recuperarem o capital sozinhos.  Será necessário um suporte coordenado de vários stakeholders neste belíssimo projeto. Os primeiros passos foram dados.  Precisamos aprender com nossas experiências. Não custa nada.

 

 

 

Redação

Alexandre Mater

Sócio fundador da consultoria Stride Inteligência Ambiental, é especialista em Sistemas de Gestão, Eficiência Energética, Sistemas de Controle Ambiental, conversão energética de resíduos.

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