Guia Gessulli
01-Abr-2020 08:03 - Atualizado em 01/04/2020 13:16
Comentário

As grandes lições e possíveis soluções para o Brasil sobreviver ao pequeno Coronavírus 19

P, D&I, fertilizantes e biocombustíveis como importantes ferramentas.

 

O Mundo e o Brasil vivem hoje uma grande pandemia, na qual as consequências são visíveis para a saúde física e invisíveis, mas previsíveis, para as saúdes mental e econômico social. Isso tudo sem fazer distinção entre países de primeiro ou de terceiro mundo, bem como de ideologias ou sistemas político-econômicos.

Não se tem dúvidas, a meu ver, que no caso brasileiro os impactos negativos serão mais agudos. A recessão econômica existente desde 2015, que já dificultava a recuperação, se depara com toda essa situação catastrófica que, parte não foi gerada dentro das fronteiras do País, e parte está atrelada a investimentos ou Planos implantados no passado. O Brasil tinha ou podia focar como prioridade estádios ou megaestruturas para Copa do Mundo ou Olimpíadas? Penso que não!

Como se não se bastasse erros anteriores, a pandemia atual traz a reboque uma maior dificuldade na recuperação do mercado de trabalho e na elevação da renda e do consumo, o que por sua vez provoca o fenômeno conhecido como “histerese” econômica.

Este fenômeno, que vem crescendo na atualidade a nível mundial, aprofunda as consequências econômicas e financeiras que, por sua vez, provocam elevação quantitativa no estado de depressão, ansiedade e insegurança na população. Ou seja: temos pela frente verdadeiros desafios a superar, que seriam a recessão econômica, a citada histerese, o Covid-19, outros possíveis danos à saúde e a morosidade na retomada da economia mundial e brasileira.

Fica evidente o importante papel do Governo na organização, preparação e execução de Planos e Programas que promovam recuperações, melhoras e avanços econômicos e sociais e que tirem o Brasil da defasagem científica e tecnológica e da calamidade que está visualizada.  

O capital privado, no entanto, terá que buscar a diferenciação e fortalecimento em seus segmentos ou tentar outros setores ou formas de comercialização como ferramentas de crescimento ou de manutenção no mercado.

Com certeza é conclusivo que a inovação e a Parceria Público e Privada (PPP) movem a economia. Apostar no auto ajuste de mercado é falacioso ou hipotético.

O drama provocado pelo Covid-19 tem corroborado que uma economia se recupera ou avança pela PPP. Um bom exemplo são os trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelo Ministério da Saúde e pela Fiocruz e por uma ação da FAPESP/MCTIC/FINEP/FNDCT. Nesta ação ocorre a disponibilização de recursos financeiros emergenciais para os segmentos público e privado visando a realização de projetos de pesquisa e desenvolvimento para produtos, serviços e processos que busquem as formas de combate ou controle do Coronavírus 2019.

Não tenho dúvidas que para um País como o Brasil, que é possuidor de um vasto território, com características físicas das mais diversas e que, ainda, convive com a falta de coesão social e com a abundância da incoerência pessoal, as dificuldades a serem vencidas serão incomensuráveis neste momento e no amanhã.

Aqui entra um ponto de vista com relação a resolvermos este problema mundial, que já alcançou as nossas fronteiras, para o qual precisamos amenizar os ônus atuais e fortalecer o Brasil para o futuro. Onde quero chegar? Simplesmente providenciarmos soluções rápidas para a pandemia do Coronavírus (que é principalmente um vírus respiratório). A curto prazo, está visível que é preciso apoiar as pesquisas, a produção ou a importação de medicamentos e outros produtos ou processos para a área da saúde. Vamos esquecer burocracias ou diferenças de pensamento ou sentimento. A situação de calamidade está presente e se precisa pensar na saúde do País e da população.

Considero fundamental, ainda, tentar diminuir os níveis de incerteza e trabalhar para conceder condições financeiras mais atrativas para que o capital privado em todos os segmentos sobreviva à queda da demanda e, em paralelo, dê continuidade a investimentos, seja em inovações ou para minimização do grau de obsolescência ou, quiçá, para simples capital de giro. O Governo apresentou uma proposta. É a melhor? Não sabemos. Mas vamos em frente.

Diante de toda esta discussão, creio que a importância da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (C, T & I) e a necessidade da concretização dos diversos acordos mundiais e determinações que (pelo menos teoricamente) se voltem às melhores condições de vida para o Planeta e para a população, passam a ser vitais.

O investimento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P, D &I) e em novas ferramentas de competitividade e de gestão alcançam uma posição de obrigatoriedade de todos que querem sobreviver e se afastar da vulnerabilidade econômica e social e que queiram pôr fim ao oportunismo de alguns. Deixemos de enxergar este investimento como despesas.

Está claro que o mundo está vulnerável (alguns países mais que outros), muito por se produzir ou buscar soluções sem planejamento e sem investimentos de longo prazo ou que não tenham respeitáveis objetivos. A necessidade de um desenvolvimento mais sustentado e sustentável é indiscutível.

Acredito que o mundo está aprendendo, de uma forma sofrida, que P, D&I são armas fundamentais à sobrevivência, à proteção, ao avanço e como uma saída do caos atual e de outros que ainda possam vir. Muitos dos quais criados sem a participação do Brasil.

De nada adiantará o País possuir a maior biodiversidade do planeta, a segunda reserva hídrica, minerais estratégicos e tantas outras vantagens naturais e continuar adotando a pulverização dos esforços de P, D & I (seja por interesses que fogem ao bom senso e a seriedade) e os investimentos de médio e longo prazos serem interrompidos ou mal feitos, conforme mostra a história brasileira.

Creio que se deve focar na promoção do desenvolvimento de novas drogas, que façam uso da nossa vasta biodiversidade; em processos ou produtos para uso em seguimentos estratégicos ou do tipo que o Brasil tenha alguma vantagem, know how ou necessidade; em incentivo a metodologias que gerem menos impactos negativos no meio ambiente e, finalmente, em setores que ofertem alimentos com melhores condições de consumo.  A qualidade de vida econômica e financeira e as questões da saúde física, mental e de meio ambiente podem ser vistas como transcendentais.

Se pegarmos os problemas respiratórios, como exemplo, a OMS estima que “ nove a cada dez pessoas no mundo respiram ar poluído e que cerca de sete milhões de pessoas morrem todos os anos de exposição às partículas finas nele contidas”.

Com certeza esta debilidade no estado de saúde da população seja a razão pela qual o Fórum das Sociedades Respiratórias Internacionais (FIRS) diga que “...a prevenção, o controle e cura das doenças respiratórias e a promoção da saúde respiratória devem ser uma prioridade absoluta na tomada de decisões globais no setor de saúde...”.

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Seria pretencioso colocar na balança vários elementos como o Covid-19, a importância da P, D&I e da PPP, a poluição ambiental, os problemas respiratórios e a segurança e concluir que o desenvolvimento de biocombustíveis, de fertilizantes e defensivos seja estratégico para o mundo e para o País? Tenho certeza que não.

Todos sabem que as discussões e debates a nível mundial apontam que as energias não renováveis, apesar de fundamentais para a produção industrial e agropecuária, geram impactos negativos no meio ambiente e na saúde humana, entre os quais os respiratórios.  Isso sem falar no fato de que as reservas atuais são finitas.

Por conseguinte, várias economias entraram no debate da necessidade de combustíveis alternativos e menos poluentes ao meio ambiente e na busca, na descoberta e no uso de biocombustíveis. Estes países, no entanto, esbarraram na limitação das condições edafoclimáticas necessárias.

Podemos afirmar, no entanto, que a experiência e os dados brasileiros corroboram o potencial do País a níveis técnico, físico e inovativo, sendo fundamental o apoio e investimento dos segmentos público e privado, tanto para pesquisa, quanto para modernização e inovação. O Brasil tem tudo para ser uma grande liderança e produzir de forma econômica e ambientalmente viável. A matriz energética e a redução de emissões de CO2 podem ser consideradas como grandes indicadores.

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Um ponto que considero muito importante, estaria atrelado à produção de matérias-primas para os biocombustíveis, a qual depende (boa parte) da produção agropecuária, que, por sua vez, precisa de elementos como fertilizantes e defensivos, dos quais o Brasil convive com alta dependência de outras economias. Como ilustração, vejamos alguns gráficos.

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Desta forma, a nível de Brasil, precisamos ser pragmáticos e refletir os mecanismos a serem pesquisados e/ou desenvolvidos para amenizar (ou pelo menos tentar) estas importações e o uso crescente destes insumos, seja em rotas tecnológicas para descobertas e testes dos minerais existentes no solo brasileiro, seja em tecnologias que diminuam as importações.

O potencial agropecuário considerável, as grandes reservas de minérios e as condições ambientais (com exceção da qualidade do solo), que são fundamentais à produção de alimentos e de biocombustíveis, deveriam servir como motivação para a busca da eficiência e da eficácia no que se refere a investimentos e incentivos para PPP.

Não tenho dúvidas que os organominerais, por um lado, e a liberação gradativa dos princípios ativos, por outro, são peças estratégicas na minimização dos impactos negativos ao Meio Ambiente e na queda da necessidade de importação de N, P e K.

Assim, no segmento de fertilizantes, o País precisa adotar como uma importante ferramenta a tecnologia do encapsulamento, na qual algumas empresas brasileiras vêm investindo capital próprio, além de parceria com o governo. Como exemplo, posso citar dois projetos de P,D&I, aprovados/contratados 2019 e 2020 e que estão sendo apoiados na forma de Subvenção Econômica pelo MCTIC/FINEP, através de uma Chamada Pública[1]. Destacando-se, ainda, que estas iniciativas buscam a descoberta do uso de resíduos minerais existentes no País ou de alguns minérios brasileiros como fontes de N, P e K.

Ao me voltar para o item de defensivos, chamo atenção que a agricultura em qualquer país convive com acentuados riscos de doenças ou pragas, exigindo uma maior utilização de defensivos para controlá-las ou eliminá-las o que, por conseguinte, elevam os níveis de resíduos no meio ambiente. Na pecuária ocorre de forma semelhante, uma vez que a criação intensiva aumenta a produtividade e traz a reboque riscos de contaminações, de estresse e de morte dos animais.

Estes pontos me fazem refletir quanto a “missão” do Brasil produzir alimentos para o Mundo e de forma sustentável, o que exige elevação da produtividade, expansão da área de produção, intensificação da oferta e busca de ferramentas mais eficientes, menos poluentes e com menores índices de dependência externa.

Diante das questões mencionadas neste artigo, tenho opinião que: devemos apoiar a continuidade aos trabalhos de P, D &I e a PPP (iniciados no passado), focarmos em aperfeiçoamento ou novas rotas da pesquisa em produtos e processos e em setores ou temas como novas drogas, fertilizantes, defensivos, biocombustíveis, encapsulamento e produção de alimentos.

Finalmente, expresso que acredito que teremos chances de minimizar a importação, a poluição do ar, da água e do solo, amenizarmos a famosa histerese e suas consequência, fortalecermos a resistência da população para esta pandemia e para outras que um dia possam surgir e retomar o crescimento do Brasil e das empresas de capital nacional. Basta nos unirmos.

Este é o encadeamento de meus pensamentos e conclusões.

 



[1] Esta ação visa o desenvolvimento, sustentabilidade e inovação no setor de mineração e transformação mineral com objetivo de buscar novos produtos e/ou processos

Redação

André Cabral de Souza

Economista, Especialista em Engenharia Econômica e MSc em Desenvolvimento Agrícola pelo CPDA/UFRRJ

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